Bruno Marchetto, uma arte onde cabe um imaginário sem limites

Chegou a Lisboa há três anos, na intenção de continuar a trabalhar na área da publicidade. Mas a capital trocou-lhe as voltas e é em Lisboa que reconhece um novo propósito. Bruno Marchetto deixou-se inspirar pelos ares da cidade, pela sinergia que vibra em cada canto e pela paleta de cores que lhe prendia o olhar a cada passagem. Do interior de São Paulo, traz a vontade inusitada de arriscar, sem medo, a fazer aquilo que mais gosta. E foi isso mesmo que aconteceu. A partir de uma tela em branco, Bruno pinta os anseios e as vontades que habitam o seu imaginário, na premissa de que a arte é, precisamente, tudo aquilo que quer gritar ao mundo.

Em entrevista para a U and Arts diz-nos que gosta de se sentir livre, sem imaginar o final de cada obra, num imprevisto intencional que lhe permite manifestar as suas inspirações.

Fotografias ©Guillermo Vidal

Gostaríamos de começar esta entrevista por conhecer a ligação do Bruno ao mundo da arte. A pintura sempre foi uma forma natural de se expressar artisticamente?

A minha ligação com a arte começou desde muito cedo, quando eu ainda era criança.
Vivia numa rua repleta de amigos que faziam grafítis e comecei a acompanhá-los em projetos de murais com mais ou menos 12 ou 13 anos. Mas o meu primeiro contacto com uma tela foi em 2014, quando estava com os meus irmãos em casa e começamos a fazer intervenções em cima de páginas de revistas e a colá-las em telas. Desde então, fui estudando cada vez mais as colagens e o uso de diversos tipos de materiais para sincronizar a fotografia com a minha estética de pintura. A arte sempre esteve presente, seja no meu modo de vestir, de comportar ou de agir…mas só entendi isso depois de algum tempo.

O Bruno trabalhava na área da publicidade, tendo vindo para Portugal com o intuito de perseguir a mesma carreira, mas é na capital que decide mudar de rumo: deixa a publicidade para se dedicar exclusivamente à arte. O que o despertou a dar este passo?

Trabalhar em grandes agências e lidar com grandes empresas tornou-me mais comunicativo e mais espontâneo.
Mas o ritmo de uma agência é caótico e cheguei a um ponto em que me sentia vazio e confuso. Já não me via a trabalhar horas e horas dentro de um espaço competitivo e agressivo. Aquele glamour já não fazia parte de mim. Sentia-me péssimo com o que acontecia ao meu redor e fui-me desconectando aos poucos deste universo e, em paralelo, conectando-me mais com o meu “eu” interior até ao ponto em que recebi um convite para trabalhar numa agência aqui em Portugal. Percebi que precisava de sentir a vida, sentir os pés no chão, desapegar-me de bens materiais e deparar-me com problemas reais internos que dependiam somente de mim para serem resolvidos. Viver em Portugal abriu-me a mente e mostrou-me que eu posso ser quem eu quiser, sem ter de me adaptar ao que a sociedade nos impõe inconscientemente.

No seguimento da pergunta anterior, podemos considerar que se deixou inspirar por Lisboa? Que detalhes na cidade – e na sua vivência – lhe prenderam mais o olhar?

Sem dúvida! (risos) Mal cheguei a Lisboa, senti um mood diferente, um ar de liberdade.
Não sei se é por ser estrangeiro, mas realmente levei um choque cultural. As pessoas andam livres, relacionam-se e são mais leves uns com os outros. Senti o real sentimento de uma amizade. Em Lisboa comecei a respirar arte, ao conhecer artistas de rua de todas as vertentes. A paleta de cores dos prédios e o céu limpo é algo que mexe comigo até hoje – mesmo após quase três anos a viver aqui.  Lisboa fez-me conectar mais com os meus pais e com o meu país de origem. Aqui, vejo o quanto o Brasil é rico em diversos sentidos e, inconscientemente, carrego este lado tropical no meu estilo de ser e nas minhas obras.

Nas suas obras mais recentes vemos uma explosão de cores e um contraste entre símbolos mais abstratos e outros mais figurativos que moldam uma expressão artística identitária. O que é que lhe interessa mais explorar nas suas obras? Que mensagem procura transmitir?

A minha arte é uma mistura de sentimentos. É o que os meus olhos viram e as vivências que já tive e ainda tenho. Quem sabe, daqui uns anos ou meses, a minha arte seja completamente outra. Tudo é passageiro. Certo dia, um amigo disse-me: “A tua arte é a tua voz, é o que tu queres gritar ao mundo”. Depois desta conversa tudo ficou mais claro, a preocupação com o senso-estético ficou de lado e o coração tomou-se por completo no momento de criação de cada obra. A arte é aberta e não tem limites. Tudo pode ser imaginável através de cada traço e textura. Não procuro transmitir uma mensagem específica e, sim, soltar o que sinto para fora. É literalmente isso. E a partir daí as coisas acontecem naturalmente. Algumas pessoas vão-se conectar mais a fundo com o que eu senti no momento de criar e outras, se calhar, nem tanto. O lado abstrato puxa muito o meu universo particular de que ainda preciso de alinhar na minha vida pessoal, mas as cores vibrantes creio que seja pelo que vivo cá em Portugal. Apesar dos desafios inerentes a viver 100% de arte, inspiro-me a cada dia e procuro não me deixar embarcar em momentos tristes e de preocupações. Tento levar a vida leve ao máximo.

A figura humana é um elemento comum na estética e no universo artístico do Bruno. É uma base de inspiração e um leque de possibilidades de expressão a partir de uma tela em branco?

Com certeza! A figura humana carrega mistérios nos olhares e em cada expressão e isso fascina-me.
Procuro não utilizar linhas marcantes de um rosto, mas ao mesmo tempo conseguir, somente com pinceladas, encaixar o sentimento que aquele rosto carrega.

Deixa de se prender apenas ao preto e branco na intenção de trazer mais cor à sua arte. O contraste de cores e texturas permite-lhe chegar à mensagem que procura transmitir?

O detalhe de cada obra leva a muitos sentimentos guardados. Gosto de me sentir livre ao criar e não imaginar o final da obra. O preto e branco foi desaparecendo aos poucos. Inicialmente, privava-me muito no senso-estético: queria a fotografia e algumas pinceladas e já está. Com o tempo fui-me conectando mais com o meu universo e sentindo mais aquilo que pintava. Quando reparei, as minhas obras estavam repletas de cores e texturas. Percebi que nada é errado, mas que tudo é conhecimento. O que eu julgava um “erro” fez-me descobrir novas técnicas e fui criando o meu universo particular na pintura.

Em que é que se inspira, essencialmente, para criar? De que forma descreve as suas influências?

Inspiro-me em coisas bonitas, em histórias por detrás de cada pessoa que, de alguma forma, passaram pela minha vida. As minhas influências vêm da arte antiga, assim como a de outros amigos artistas que conheço. Gosto muito de Matisse, mas também acompanho muito a arte contemporânea e de artistas de uma geração anterior à minha e que me inspiraram para começar a pintar. A inspiração é basicamente no que vivo e no que ainda quero viver. É o que me motiva a continuar a criar. Eu não me vejo sem a arte na minha vida.

Para terminar, gostaríamos que o Bruno nos falasses dos seus anseios para o futuro, de projetos que gostaria de desenvolver ou que novidades podemos esperar para os próximos tempos?

Acho que todo o artista (pelo menos os que eu conheço) quer fazer um mural numa lateral de um prédio, ter uma exposição numa galeria ou participar num projeto grande de arte. Estou a estudar e a amadurecer a minha arte para que um dia isso chegue. No início deste ano, eu e mais três amigos criamos o Coletivo Bandido, um hub criativo localizado em Oeiras que vai contar com várias vertentes da arte como: artes plásticas, fotografia, produção de vídeos, design gráfico e serigrafia. Tudo começou organicamente e é um novo ciclo de troca artística que se inicia na minha vida e na dos meus amigos também. Tudo ainda é muito novo, mas entregamo-nos de corpo e alma neste projeto e esperamos propagar ainda mais arte.