Maria Helena Vieira da Silva: sobre os encantos da arte

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Maria Helena Vieira da Silva, uma das mais conceituadas artistas portuguesas, nasceu no dia 13 de junho de 1908, em Lisboa, e desde muito cedo a sua educação abraçou o mundo artístico. Dos 11 aos 19 anos, e ainda em Lisboa, estudou música, desenho, pintura e escultura. Em 1928, com 19 anos, partiu para Paris com a mãe para continuar a estudar arte.

Durante o primeiro ano em França, a escultura foi o seu principal foco tendo estudado nas academias Scandinave e La Grande Chaumière – onde conheceu o também pintor Arpad Szenes, com quem viria a casar e a dividir praticamente toda a sua vida. Passado um ano, Vieira começou a estudar pintura e, em 1929, além de se iniciar na gravura, Vieira estudou pintura com grandes nomes da época, como Dufresne, Waroquier, Friesz, Fernand Léger e Bissière.

Em 1933 viria a realizar a sua primeira exposição individual, às mãos do galerista Jeanne Bucher, e logo na mais conceituada sala de Paris: Salon de Paris. Em Portugal, expôs pela primeira vez dois anos depois, em 1935, na Galeria UP. Em 1936, Vieira da Silva voltou a expôr trabalhos seus em Lisboa, mas desta vez com o seu marido Arpad Szenes, no atelier dos dois.

Em 1939, a artista deixa Paris e volta à Lisboa devido à 2ª Guerra Mundial, confiando suas obras e atelier à galerista Jeanne Bucher. No ano seguinte, parte para o Brasil e instala-se, inicialmente, no Hotel Internacional, no Rio de Janeiro, onde convive com outros artistas europeus que se exilaram no país.

 

“(…) Vieira da Silva ergue e junta e pinta os seus quadrados: cada um segue o outro, persegue-o, na edificação que, fazendo-se, prossegue. Na construção que vai sendo, magicamente, como, sobre um écran, uma projeção invertida faz erguer, de um monte de pedras, as paredes inesperadas de uma casa. A construção está a fazer-se, com uma força inevitável e iniludível. A fazer-se, simplesmente. Não a refazer-se: a fazer-se. Cada novo recanto, cada degrau ou cada luzir de empena, é uma coisa sozinha, uma coisa nova que não existia antes, que não traz consigo a memória da antiga presença da casa, nem deixa o vácuo de uma forma volvida. (…) E, depois, como num sistema de espelhos paralelos, na obediência a uma lei assustadora, tudo se reflete, se multirrepresenta até ao infinito matemático, se transforma em imagens de si próprio e ganha, na irregularidade e na vertigem, uma nova realidade, mais feroz, mais funda, um poder metafísico inevitável. É a realidade que se vê em volta, olhada do cerne terrível dessa mesma realidade. Terrível, no absurdo que não tem fim, nem utilidade palpável (…)”.

José Augusto França

Além da pintura, a artista explorou também outras áreas: da tapeçaria aos vitrais, passando pelas ilustrações de livros infantis, pelos cenários de teatro e eternamente pelos azulejos. Na década de 60, destacou-se através de prémios e nobres distinções: França concedeu-lhe os graus de Cavaleiro e de Comandante da Ordem das Artes e das Letras; recebeu o Grande Prémio Internacional de Pintura da Bienal de São Paulo; foi-lhe atribuído o Grand Prix National des Arts em Paris; foi nomeada Sócia Honorária do Grémio Literário de Lisboa. Por esta altura, realizaram-se um pouco por toda a Europa exposições retrospetivas da sua obra. As cotações das obras da artista estavam por esta altura ao nível das de Picasso, seu contemporâneo.

Em 1975, a pedido da poetisa Sophia de Mello Breyner, Vieira pintou dois cartazes que viriam a ser um marco importante na pintura em Portugal e no imaginário dos portugueses. A Poesia está na Rua foi inspirado nas fotografias do 1º de maio de 74 para retratar o 25 de abril desse mesmo ano.

Em 1990, cinco anos após a morte do seu marido, nasceu a Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, (FASVS) em Lisboa, que partiu do desejo da artista de criar um centro de estudos dedicado à obra de ambos, na sua casa de Lisboa. O museu inaugurou apenas quatro anos depois, mas tarde demais: Maria Helena não recuperou de uma delicada cirurgia e acabou por morrer, em março de 92. O museu viria a inaugurar em novembro de 94.